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Satélites da NASA mostram a marca humana na água dos continentes; Planalto Brasileiro está entre as maiores perdas

Estudo com mais de 20 anos de dados GRACE identifica 40 regiões onde irrigação, represas e uso da terra mudaram a água armazenada. No Planalto Brasileiro, a perda chega a 24,3 gigatoneladas por ano.

Mapa-múndi das tendências de armazenamento de água nos continentes, com áreas azuis de ganho, áreas laranja e marrons de perda e regiões contornadas em preto.
Tendências do armazenamento terrestre de água entre abril de 2002 e novembro de 2025, em altura equivalente de água por ano. Azul indica ganho; laranja e marrom, perda. Os contornos pretos marcam regiões com forte associação a atividades humanas.
NASA Earth Observatory/Michala Garrison, based on data from O’Neill et al. (2026) · NASA Images and Media Usage Guidelines (not copyrighted in the U.S.)

A NASA Earth Observatory publicou em 20 de outubro de 2026 um mapa global que mostra onde a atividade humana, e não apenas o clima, alterou a quantidade de água guardada nos continentes. Com base em mais de duas décadas de medições de gravidade feitas por satélites, o trabalho identifica 40 regiões em que as tendências de armazenamento acompanham a irrigação, o enchimento de reservatórios ou a mudança no uso da terra. Segundo a agência, esses fatores tiveram relação significativa com as tendências em todos os continentes não polares, exceto a Austrália.

Os dados vêm das missões GRACE, lançada em 2002, e GRACE-FO, de 2018. Cada uma usa dois satélites que voam em fila: quando passam sobre uma região com mais ou menos massa, a distância entre eles muda, e essa variação revela o peso da água acumulada em rios, solos e aquíferos. O estudo, assinado por Mary Michael O’Neill, Matthew Rodell e Bryant D. Loomis e publicado na PNAS em 14 de setembro de 2026, processou de uma só vez os dados brutos de abril de 2002 a novembro de 2025. A técnica troca o detalhe mês a mês por resolução espacial: cerca de 12 mil km² em latitudes médias, contra mais de 120 mil km² nos métodos convencionais.

O resultado mais forte para o Brasil aparece no Planalto Brasileiro, que perdeu 24,3 ± 2,5 gigatoneladas de água por ano, a segunda maior queda entre as 40 regiões. Uma gigatonelada equivale a um bilhão de toneladas, aproximadamente um quilômetro cúbico de água. Os autores associam a perda à chuva abaixo da média durante dois El Niño fortes, em 2015–2017 e 2019–2020, somada à irrigação abastecida por água subterrânea e ao aumento do déficit de pressão de vapor do ar, que intensifica a demanda por água.

O mapa também registra ganhos no país. No Maranhão, o armazenamento cresceu 3,7 ± 0,8 gigatoneladas por ano, numa região em que a área florestada diminuiu 15%. A bacia central do Paraná e a região do Atlântico Sul brasileiro também tiveram aumentos, de 2,4 e 1,0 gigatonelada por ano. A explicação proposta é que culturas de sequeiro, como leguminosas e cereais, transpiram menos e alcançam água mais rasa do que a vegetação nativa, deixando mais água infiltrar até os aquíferos; os autores ressaltam que chuva e umidade do ar também pesam nessas tendências.

Fora do Brasil, a maior perda ocorreu no norte da Índia, com 32,4 ± 4,0 gigatoneladas por ano, ligada ao bombeamento de água subterrânea; o recuo das geleiras do Himalaia explica só 15% da queda. O Vale Central da Califórnia, as Altas Planícies dos Estados Unidos e Chihuahua, no México, repetem o padrão de agricultura irrigada por poços em períodos de seca. Somadas, as 40 regiões perderam 3.122 gigatoneladas e ganharam 2.432 no período, e as tendências regionais ficaram, em média, 33% maiores do que as estimadas pelo método tradicional.

“Em quatro regiões continentais, uma variável antrópica mostrou relação mais forte com as tendências de armazenamento do que qualquer variável climática”, afirmou à NASA a hidróloga Mary Michael O’Neill, do Goddard Space Flight Center e autora principal do estudo. Segundo a agência, ela quer acompanhar como barragens, desvios e irrigação afetam a água a jusante e recuperar mais detalhe ao longo do tempo, para seguir a resposta a secas ou a mudanças de política.

O método tem limites claros. Ele mede tendências de longo prazo, não as oscilações de um ano para outro, e sua escala, de cerca de 100 km, não substitui o monitoramento de poços e aquíferos no campo. A atribuição às atividades humanas é estatística e combina os mapas com estudos já publicados; os próprios autores apontam que chuva e umidade do ar podem se sobrepor a esses efeitos. A próxima missão, GRACE Continuity, tem lançamento previsto para 2028 e deve prolongar a série.

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